O rosto da democracia brasileira
. Jovens e idososUm dado importante para o comportamento das urnas em 2026, como sempre, será o engajamento dos grupos para os quais o voto não é obrigatório: jovens com 16 e 17 anos e idosos com 70 anos ou mais. Juntos, esses contingentes somam 20,5 milhões de brasileiros.
- Engajamento jovem: O alistamento de adolescentes de 16 e 17 anos totaliza 2,1 milhões de eleitores em 2026. É uma faixa etária que apresenta volatilidade conforme o tipo de eleição que se avizinha, mas o número de jovens que se habilitaram para votar no pleito geral de 2022 foi praticamente equivalente.
- Envelhecimento: O número de eleitores com 70 anos ou mais, por sua vez, poderia esperar um crescimento mais acentuado, reforçando a tendência de envelhecimento da base eleitoral. Entre 2022 e hoje, o total de eleitores nessa faixa pouco avançou, indo de 14,9 milhões para pouco mais de 15 milhões.

O poder da inclusão
O engajamento do cidadão ganhou uma nova camada desde as últimas eleições gerais. Em 2023, a Justiça Eleitoral começou a compilar várias categorias de declaração de identidade no levantamento estatístico do eleitorado, como cor/raça e identidade de gênero. A identificação, opcional, foi disponibilizada para o cadastro eleitoral no ano anterior. A maioria das pessoas prefere não responder a essa categorização, mas o número dos que aderem cresce rapidamente, ajudando a consolidar a medida.

A Justiça Eleitoral também aceita o registro do eleitor com o nome social, que é a identificação escolhida por um cidadão transexual para atender à sua identidade de gênero — em oposição ao nome civil, que foi registrado no nascimento. Para se cadastrar com o nome social basta a autodeclaração: não é preciso apresentar outros documentos em que conste o mesmo nome. Uma vez inscrito no cadastro eleitoral com o nome social, o eleitor não terá o seu nome civil divulgado pela Justiça Eleitoral, exceto em caso de exigências legais ou de solicitação própria.
- Identidade de gênero: Em maio de 2023, quando a Justiça Eleitoral começou a divulgar essa informação, menos de 2% do eleitorado indicava sua identidade de gênero (cisgênero ou transgênero); hoje, são mais de 20%, ou quase 33 milhões de pessoas.
- Nome social: O número de pessoas que utilizam nome social no título alcançou 41.537 eleitores em 2024, nas eleições municipais. Nas eleições gerais de 2022, esse número era de 37.646 pessoas, evidenciando um crescimento constante na busca por reconhecimento.
- Pessoas com deficiência: O eleitorado que declara alguma deficiência atingiu o recorde de 1,45 milhão de pessoas. Este contingente é significativamente maior que o de ciclos anteriores, tendo duplicado nos últimos oito anos e crescido substancialmente desde o pleito de 2022.
- Inclusão indígena: No último pleito, foram distribuídos mais de 21 mil cartazes nos idiomas Nheengatu e Guarani para orientar as comunidades em suas línguas originárias. Para 2026, a Justiça Eleitoral já trabalha na ampliação dessas medidas para garantir a pluralidade e a representatividade nacional.
Para além da demografia, o comportamento político revela um cenário de independência ideológica: cerca de 40% dos eleitores não se consideram de esquerda, direita ou centro. O apontamento vem do Instituto DataSenado, que, em 2024, mapeou a cabeça do eleitor na pesquisa Panorama Político.
O que também emerge com força, segundo o coordenador do DataSenado, é outro fenômeno: o protagonismo das mulheres na defesa da democracia e uma juventude que, mesmo acompanhando menos o cotidiano legislativo, tem uma agenda de valores clara e progressista em temas como direitos civis e justiça social.
Para ele, isso é sinal de que a identidade política vem sendo moldada mais por causas do que por identificações partidárias clássicas. Essa conclusão também carrega um recorte geográfico. Por exemplo, regiões como o Sul e o Centro-Oeste priorizam debates sobre segurança pública e armamento, enquanto o Nordeste se destaca pela confiança institucional.
— A geografia política do país revela que o Brasil não possui uma consciência única, mas sim um mosaico de agendas que variam conforme o território e o estilo de vida. Essa segmentação, somada à análise por perfis de comportamento, permite entender que a ideologia declarada é apenas um descritor superficial. O que define o eleitor são suas afinidades reais com temas como direitos, economia e confiança nas instituições, elementos que permitem separar os grupos bem demarcados daqueles que ainda habitam a zona de incerteza política.
Eleições e Congresso: o caminho para um novo Código Eleitoral
Enquanto o eleitorado se transforma, o Congresso Nacional trabalha no projeto para o novo Código Eleitoral (PLP 112/2021), sob a relatoria do Senador Marcelo Castro (MDB-PI). O texto é ambicioso: com ele, o país vai unificar todas as suas normas eleitorais, hoje dispersas entre várias legislações.Entre outras inovações, o novo Código pode incentivar a participação política das mulheres. O texto cria uma reserva de 20% das cadeiras nas casas legislativas para mulheres durante 20 anos. Atualmente, há uma cota para candidaturas femininas, mas nenhuma garantia de vagas.
- Aumentar a transparência da prestação de contas partidárias
- Instituir o voto impresso
- Instaurar uma quarentena para agentes públicos se candidatarem
O projeto veio da Câmara dos Deputados e já passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com parecer favorável. Agora, ele precisa da aprovação do Plenário do Senado. Como houve mudanças promovidas pelos senadores, ele precisará voltar para a confirmação dessas mudanças pelos deputados.Mesmo se for aprovado antes de outubro, o novo Código não terá validade para as eleições deste ano, devido ao princípio da anualidade eleitoral: novas leis que alteram regras de eleições não se aplicam aos pleitos realizados dentro do primeiro ano da sua vigência.

